Metatexto Sequencial

Acho que eu deveria escrever mais. Pra alguém como eu, introvertido e com poucas responsabilidades, penso que eu deveria usar uma boa parte do meu tempo em atividade intelectual – escrevendo e lendo – mas faço isso muito menos do que provavelmente deveria. Se escreveria pra mim mesmo apenas, (ou talvez pra algum mestrando futuro, quem sabe, se eu me tornar um escritor famoso algum dia, heh) é de pouca importância. Ou não? Realmente não sei. Talvez eu tenha coisas úteis a dizer, mesmo que ninguém pare pra entender, nunca. Talvez tudo o que eu fale seja merda inútil. Essa última opção faria sentido, já que nas poucas vezes que interajo, hoje em dia, sou respondido com oposição instantaneamente.

Eu gostaria de saber escrever e saber sobre o quê escrever (ou falar), como as pessoas que mantém grandes blogs, vlogs, ou mesmo escritores tradicionais (apesar de que eu duvido, profundamente, de que algum dia me tornaria um desses. No máximo um blogueiro de pequena limitada fama). Essas pessoas (digo das que o fazem de forma eficiente) simplesmente ultrapassam minha capacidade de organização pra fazer textos, trazendo ideias em ordem compreensiva, referências (tanto links na internet quando referências a obras publicadas, frases e afins) e discussões que, ao tentar fazer de forma similar, falho diretamente no começo. São funções que eu não sei seguir. Mas gostaria de saber.

E sobre o que falaria? Há muitos assuntos que certamente eu gostaria de discutir, mas quando tento, percebo que não tenho base empírica nem capacidade de raciocínio pra tal. Política. Economia. Ciência. Sociologia. Filosofia – isso dos campos mais tradicionais. Na minha cabeça, às vezes tenho ideias claras, mas ideias que não sobrevivem a um simples argumento de qualquer um. Será que não sobrevivem porque acho que a maioria dos argumentos é mais forte que as minhas ideias? Talvez. Mas isso aliado ao fato de que eu não vejo base forte no que falo, na maioria das vezes, me faz desistir delas. E por não ver base, de uns tempos pra cá prefiro não dar minha opinião, em geral.

E por que falaria de qualquer coisa? Um motivo lógico, me parece, seria para talvez chegar à soluções para problemas grandes e pequenos. Analisando rapidamente, há diversos problemas que eu poderia abordar num texto, por exemplo, misoginia, racismo, homofobia, e mais outros problemas de ordem social que estão em maior evidência. Tenho certeza de que essas coisas são discutidas o suficiente (ou são? Já que os problemas ainda existem…) em todos os círculos competentes, então qual seria uma razão pra *eu*, de todas as pessoas, falar disso? Duvido que minha razão chegue a soluções que outras pessoas não chegariam. Mesmo porque outras pessoas possuem conhecimento de tais assuntos.

Poderia falar sobre assuntos menores, como coisas que eu gosto. Mas além de ser inútil a mim mesmo, até onde posso ver, duvido que qualquer pessoa (salvo o ocasional psicólogo precisando analisar algum retardado) veria utilidade num texto assim. Mesmo porque, de novo, não há nenhum campo que eu possua conhecimento que eu julgue profundo o suficiente pra compor textos sobre algo específico. Até poderia ser de algum uso focar para certos públicos – por exemplo, me surpreendo que até hoje não tenha esbarrado com nenhum conlanger na Faculdade de Letras da UFRJ. Mas será que eu seria capaz de fazer um texto útil sobre isso? Escritores (ao menos um deles linguista e programador competente) já escreveram livros sobre isso! Provavelmente qualquer um interessado nisso teria mais sucesso procurando por si mesmo do que lendo um texto escrito por mim sobre o assunto – e falei apenas de um dos assuntos que gosto.

Mas mesmo sem conhecimento, creio eu, pessoas escrevem  – ironicamente, assim como eu estou fazendo no momento, mas vou ignorar isso por hora. Será que tais pessoas não deveriam escrever, até chegar num determinado nível de conhecimento (de difícil delineação), ou essa escrita mesmo que, de certa forma, pobre, tem alguma função, tanto para o escritor quanto para possíveis leitores, ou apenas a algum dos dois? Talvez a escrita traga algo mais comparada ao simples raciocínio quanto a algo, através do train of thought que segue cada palavra? Creio que isso não ocorre comigo.

Enfim, nem sei mais ao certo por que comecei a escrever esse metatexto. Me pareceu algo certo a fazer tentar escrever o que viesse à cabeça, mas já começo a esfriar. O que, ironicamente, é algo que não entendo – como aquelas tais pessoas conseguem escrever tanto conteúdo continuamente, com breves hiatos? O que me falta que as faz sempre ter sobre o que falar, e de formas muitas vezes interessantes? Será algo habitual ou simplesmente de cada pessoa? Talvez minha vida seja realmente tão estática que não consigo nem compreender tal coisa.

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O nada

O nada não é nada, senão
A negatividade inconformada
Por sua inexistência inválida
E invisível, ímpar.

Ao em nada pensar,
Não se pensa; nada há,
Nada se faz, nada existe,
O nada se cria do nada.

Ao falar do nada, na verdade
Não falo de nada em especial;
Apenas há a ausência de algo
Com significado a ser dito.

O nada é a ausência, a falta,
Portanto pode parecer vil;
Mas lembre que nem o céu
É pintura só de estrelas.

Engrenagens II (Upgrade)

Esse texto é uma tentativa de atualização por reescrita e adição interpretativa (em palavras menos pretensiosas, como eu escreveria esse texto hoje, sem jogar fora o que ainda me parece verdade) do texto Engrenagens.

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Ante minhas janelas: um mundo extraviado,
Preso a seus leitos e suas fraudes,
Seus defeitos vigorosos e amores (falsos?);
Que, parado, segue’m sua rotina vergonhosa.

A nós, o Sol sopra – não, esbanja seu laranja,
e a Lua grita seu fomento de cura;
Pássaros caem e morrem como nunca antes
E mesmo assim, a viciosa rotina segue.

Magos viraram mecanismos:
“é tão fácil viver como peça;
pensar fora da máquina dói”.
As engrenagens, por vezes,
Exercem força insuportável
Naquelas que as cercam.

Um dia, imaginei ter algum potencial
Contra o cíclico motor da civilização;
Mas é intangível das peças o vil metal:
Terão as engrenagens um fim?

(Haverá uma chave?)

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(Créditos a meu amigo Daniel pelas partes citadas)

Campo de Batalha

I
O cavaleiro olha para as linha inimigas, distantes.
Mil soldados, com espadas e escudos, confiantes.

O cavaleiro começa sua investida;
Seu cavalo aposta com sua vida.

Ignora pedras na grama,
Olhando para as aves a voar;
O Sol brilha como alva dama.

E chega o final momento;
Lança abaixada, um exaltado sentimento.

Uma falha na defesa,
Seu escudo estivera baixo;
E a cena perde sua beleza.

E ao desespero e à morte,
Ele entrega sua sorte.

II
Mas naquela batalha não se foi sua vida.
A única herança foi uma mera ferida.

Levanta-se o cavaleiro, que agora não reluz;
A raiva em seu coração o seduz .

‘Olhai para os lados’, diz um soldado,
E o cavaleiro vê que não está só;
Há um exército a seu lado!

E outra vez a carga toma sentido;
Desta vez, com escudo erguido.

A confiança retorna,
Com a experiência e o preparo;
E o chão torna-se sua bigorna.

E as batalhas futuras,
Ele as transforma em aventuras.

III
Pois até nas lutas que perdemos,
Há algo que aprendemos.

A vida é uma guerra com um único inimigo;
Aquele que você carrega consigo.

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Dedicado a meus amigos, que encontram obstáculos a cada esquina.

A Não-Importância

Uma rua deserta;
As sombras, paradas;
Uma senhora alerta;
As esquinas, caladas.

O vento quieto,
Onde não há teto,
Sopra da ausência
De sentido na vivência.

As árvores dormentes,
Deitam à estrada;
Tão disformes parentes,
Na noite calada.

Sobe tal qual bruma
A fumaça gordurosa;
Uma doentia pluma
Na noite chorosa.

Em suma, é uma rotina,
– Sem aparente vacina –
Com o desânimo diário
Ao qual não há páreo.

Mas as ruas logo tornam,
À guisa de impressão,
A mostrar o que são
E a quem levam:

Um rosto bonito e sério,
Que em sorriso se abre;
Um andar engraçado
Pela calçada levado.

Até meus braços;
E, de repente, eu vejo
Em cessar meus passos,
Que a noite mente.

 

Ad Insomniam

Dormir de tarde dificilmente resulta em insônia pra mim, porque quase sempre que durmo de tarde é por estar devendo sono… Mas infringi minhas regras e ontem a insônia trouxe esses dois textos – estruturalmente pobres – que são um fragmento de coisas das quais tenho tentado falar em textos que escrevo. Aí vão eles.

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A Graça sem Graça

Veja que noite engraçada:
O casal conversa na cama,
Na cama no quarto escuro.
E o ventilador sopra.

Em outra casa, na cama,
Num quarto de luz apagada,
Outro casal dorme.
Assim como seu filho.

Quanto ao primeiro casal,
Seu filho escreve,
E pensa em como é engraçado
Não ter sua amada a seu lado.

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De Noite

O velho dorme,
O trabalhador descansa.
Um bebê chora
E sua mãe o balança.

O dedicado madruga,
O vigia cochila.
O jovem digita
E o poeta…

O poeta se pergunta
Se a noite é melhor
Por que tudo fazemos
Durante o dia?

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Post Scriptum : Percebi que quando os faço sem pensar em forma, meus textos em geral saem como três estrofes de quatro linhas. E minhas midis sempre tem melodias e seções em quatro compassos de 4/4 :P. Engraçado…

Um poeta

Era uma vez um poeta,
uma criança que conheceu a opressão dos pais tiranos,
uma pessoa que conheceu a solidão.

Era uma vez um poeta,
que às moças dedicou o texto em verso,
que aos jogos, dedicou tempo.

Era uma vez um poeta,
que descobriu amigos em distantes indivíduos,
que descobriu refúgio na máquina.

Há agora um poeta,
que em seu prazer achou responsabilidade,
que em seu texto, encontrou o vazio.

Um poeta que
nos cigarros fez falsos amigos, e
nas mulheres, fez falsas musas.

Me pergunto se haverá poeta
que de seu passado se lembre,
e algum dia volte a ser poeta.

(Levante-se, poeta !)

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Dedicado a um certo amigo.